A semana passada publiquei este retrato da Retrato da Ana Varela, realizado durante a apresentação da nova coleção, de uma reputada marca. Rapidamente recebi feedback através de mensagens, a solicitar que queriam um igual, ao qual e com muita penha minha, tive de responder: Desculpe, não conseguimos fazer dois retratos iguais.

A resposta criou um misto de frustração com estupefação, mas afinal não era este fotógrafo um reputado retratista?

O resultado de uma fotografia é mais psicologia do que técnica. O que é certo é que mais de 80% da nossa comunicação é não verbal, portanto ficam plasmada numa fotografia, por muito que esta não tenha voz, comunica mais do que pensamos. O retrato comunica características da personalidade, o estado de espírito naquele momento, permitindo ao observador sentir a pessoa.

Toda esta magia acontece quando o retrato não é realizado em pose, mas sim capturado no meio da interação entre o fotógrafo e o modelo, motivo pelo qual respondi no plural.

A história desta foto é muito simples, era uma sexta-feira, depois de ter sido alvo de fotos para várias revistas, entrevistas para rádio e televisão, encontrei a Ana sentada num canto, claramente estafada. Ao aproximar-me o olhar transparecia o cansaço e pouca falta de vontade de tirar mais uma foto. Educada e simpática tentou sorrir, apesar do olhar cansado não acompanhar, esboçou o melhor sorriso forçado que conseguiu, demonstrando brio profissional. A alteração de expressão que deu forma a foto ocorreu quando baixei a câmara e perguntei: semana dura, não foi? O olhar de vago passou rapidamente para comunicar consentimento, a retribuir o gesto, o sorriso esvaneceu-se, relaxando e passando de uma expressão falsa para o estado real.

O primeiro desafio que temos num retrato é quebrar o muro que separa a vaidade do modelo e a nossa vontade de captar com transparência. Este modelo não se pode aplicar a campanhas comerciais, onde a imagem é um ato dirigido, mas num retrato é a sua essência, e para isso temos de acolher o modelo, reforçar a auto-estima, mostrar o caminho para que possa perder o controlo da expressão e passar a comunicar a sua essência.

Uma vez conquistada essa proximidade, temos de legitimar o bom trabalho que está a desenvolver. Esta processo já não se aplicou no retrato em causa, mas acontece na maioria dos casos, temos de mostrar os resultados que estamos a atingir juntos neste processo, para que o modelo perca o medo à objetiva. 

A semana passada tive de fotografar executivos de uma multinacional, sem qualquer background ou tempo para aprofundar uma relação com os mesmos. Num dos retratos dei de caras com um senhor triste, cansado, de olhar perdido e com pouca autoestima. Procurei incessantemente onde poderia reforçar a auto-estima. Quando pensei elogiar a indumentária, verifiquei que tinha um casaco dois ou três tamanhos acima do que seria adequado, assim como um relógio de desporto. Ousei arriscar perguntar se tinha começado a treinar e como estavam os resultados. O olhar ganhou foco e respondeu que tinha perdido 13 kgs. Rapidamente devolvi um mimo, que tinha valido a pena e que certamente iria ganhar qualidade de vida, que estava de Parabéns. Obtive a melhor expressão do dia, uma cara de orgulho e alegria.

A objetiva tem esse papel de espelho, somada ao comportamento do ser humano de inconsciente de rebaixar o seu potencial. O papel do retratista de comunicar com o modelo é fundamental, procurando elementos de proximidade, salientar características únicas, e mostrar que o melhor de nós não se encontra naquela sala, mas nas nossas ações e que estas devem ser elevadas, captando a expressão de resposta a esses estímulos.

Certamente não vou conseguir responder às expectativas dos pedidos, certamente vou ter resultados diferentes, mas que vão exprimir a essência de cada um e não projectar a beleza ou estado de ânimo de outra pessoa.

Para quem tiver mais interesse sobre este assunto, recomendo vivamente o livro The Psychological Portrait - Marcel Sternberger's revelations in photography, uma obra que compila as anotações de um dos meus retratistas favoritos.